Cedae tem lucro de 52% em 2016, mas tratamento de esgoto só avançou 0,66%

NOVA IGUAÇU -  Ninguém sabe ao certo o nome do rio poluído que serpenteia as casas do Bairro Maio, região marcada pela pobreza, às marg...


NOVA IGUAÇU - Ninguém sabe ao certo o nome do rio poluído que serpenteia as casas do Bairro Maio, região marcada pela pobreza, às margens do Arco Metropolitano, em Nova Iguaçu. Sem se identificar, um antigo morador lembra de já ter visto peixes nadarem por ali, quando ainda era criança. Hoje, no entanto, o cenário é desolador. Assoreado, o afluente do Rio Botas virou simplesmente um valão, carregando parte do esgoto das casas do entorno. Outra parte é aterrada em sumidouros, contaminando os lençóis freáticos e comprometendo ainda mais o abastecimento de água, feito por poços artesianos, perfurados pelos moradores. No Bairro Maio, não há saneamento básico nem outros serviços essenciais, como coleta de lixo, pavimentação e iluminação. Um lugar completamente esquecido pelo poder público.

— Jogamos o esgoto direto no valão. Foi o jeito que tivemos que dar — afirma o confeiteiro Valdinei Augusto, de 38 anos, ao lado da mulher grávida e de seus três filhos pequenos.

Responsável pelo saneamento básico em 64 das 92 cidades fluminenses e vital para a aprovação do projeto de ajuda financeira ao Rio costurado com a União, a Cedae amplia seus serviços a passos de formiguinha. De 2015 para 2016, enquanto seu lucro líquido cresceu 52%, conforme adiantou o colunista Ancelmo Gois, os índices de atendimento de água e de esgoto aumentaram módicos 1,32% e 0,66%, respectivamente, de acordo com o relatório de administração e demonstrações financeiras, divulgado pela empresa na semana passada. Suas receitas saltaram de R$ 248,89 milhões, em 2015, para R$ 379,23 milhões, em 2016.

ÁGUA AINDA NÃO FOI UNIVERSALIZADA

No entanto, apenas 35,64% de seus clientes têm coleta de esgoto, bem abaixo da média brasileira (50,3%). Há seis anos, o índice era um pouco maior: 38,9%. A companhia atribui a queda à saída de parte da Zona Oeste do Rio, que teve o serviço privatizado, em 2012, pela empresa Foz Águas 5, do Grupo Águas do Brasil. No último ranking do Instituto Trata Brasil, que avalia a qualidade dos serviços de saneamento nas cem cidades mais populosas do país, a capital fluminense amarga o 57º lugar, pois perdeu sete posições em relação ao levantamento do ano passado, permanecendo atrás de cidades como Niterói (19ª), Campos dos Goytacazes (34ª), Petrópolis (36ª) e Volta Redonda (41ª), onde o saneamento é administrado por concessionárias privadas.

Nova Iguaçu é uma das piores, em 92º lugar no levantamento, seguida por Duque de Caxias, em 91º. Há um ano morando no Bairro Maio, Valdienei já pensa em se mudar, diante de tanta precariedade. Desempregado, conta que tem dificuldades para comprovar onde mora, já que sua rua não tem CEP:

— Não gostei do lugar. Vou para Cabuçu. Lá, é tudo asfaltadinho, bonitinho. Tem coleta de esgoto, abastecimento de água. Às vezes, quero fazer um serviço e não tenho como dar o endereço. Estou me mudando por causa disso.

Já o abastecimento de água, embora melhor, ainda não foi universalizado. Chega a 88,10% dos consumidores, segundo dados da companhia. Em seis anos, houve uma ampliação de apenas cinco pontos percentuais.

Ao analisar o balanço da Cedae, o economista Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B, atesta: a empresa padece de problemas operacionais, não financeiros.

— O problema da Cedae é a baixa cobertura de questões mais essenciais para a população, como tratamento de esgoto, além de registrar elevado nível de perdas técnicas. Se produz muito, também perde muito, antes mesmo de a água chegar aos consumidores. O problema central não é a questão financeira. Na minha perspectiva, o desafio é operacional. Por isso, é importante mudar o modelo. É preciso ampliar a cobertura, de água inclusive. Não adianta chegar o cano na casa do consumidor e não ter água — observa.

No Parque São Carlos, também em Nova Iguaçu, é justamente isso o que acontece. As ruas foram pavimentadas, os canos, instalados, mas a água ainda não chega às casas dos moradores.

— A coleta de esgoto é coisa de primeiro mundo, quase igual à de Copacabana. Mas não tem água. É tudo poço artesiano — reclama o vendedor João Batista Moraes, apontando para os cabos azuis expostos do lado de fora das casas.

Os balanços financeiros e administrativos da companhia mostram os programas de obras a serem executados a cada ano. Dos 73 projetos de R$ 3,93 bilhões, previstos no balanço de 2015, 29 tiveram seus prazos postergados. Desses, 18 eram para ter saído do papel no ano passado, como a ampliação do sistema coletor de saneamento sanitário da Lagoa da Tijuca, na Barra, e a melhoria do abastecimento de água tratada em áreas de São Gonçalo. Por nota, a Cedae afirmou que as obras com recursos próprios estão dentro dos cronogramas. Já as que são do governo do estado tiveram que ser reprogramadas, devido à crise financeira.

A Cedae, aliás, é a principal moeda de troca do governo do estado para a aprovação do pacote de recuperação fiscal dos estados no Congresso. No mês passado, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou a venda da companhia como uma das contrapartidas do projeto. O valor estimado da empresa varia entre R$ 4 bilhões e R$ 8 bilhões.

De acordo com o projeto do Executivo, o estado terá seis meses, prorrogáveis por igual período, para contratar instituições financeiras federais — BNDES, Banco do Brasil ou Caixa Econômica — que ficarão responsáveis pela avaliação e pela estruturação da operação de alienação das ações da Cedae. Todo o processo da venda deve durar um ano e meio. O secretário da Casa Civil, Christino Áureo, informou que aguarda o pacote ser aprovado em Brasília, para dar prosseguimento ao processo de venda:

— Estamos numa fase muito preliminar ainda. A questão de estruturação e modelagem da Cedae virá, mas é preciso garantir que, antes, teremos, de fato, o regime de recuperação fiscal aprovado. Qualquer coisa em relação à Cedae não vai caminhar antes disso.

CEDAE DIZ QUE LUCRO MAIOR É BOA GESTÃO

A Cedae informou que o aumento do lucro líquido é fruto de uma boa gestão, que aumentou o resultado operacional em R$ 21 milhões e reduziu as despesas em R$ 129 milhões. Segundo a empresa, houve o reconhecimento de uma dívida, em 2015, em função de reajustes de contratos, que acabou elevando as despesas do exercício.

Tal fato, explicou a companhia, não ocorreu em 2016, o que ajudou a reduzir esses gastos. Sobre o baixo avanço no saneamento, a Cedae ressaltou que as porcentagens se referem a toda a região atendida pela Cedae e defendeu que não são números baixos para o período de um ano. E alega que os investimentos mais que dobraram de 2015 para 2016: saltaram de R$ 187,50 milhões para R$ 393,41 milhões: 109,82%.

Para Pedro Scazufca, sócio da GO Associados e coordenador do Ranking de Saneamento do Instituto Trata Brasil, a Cedae tem desempenho operacional inferior ao de outras empresas do setor.

— É um avanço muito lento; até por causa disso, estão pensando em modelos diferentes para ela — afirmou.

A Cedae também respondeu sobre os problemas de atendimento constatados pela reportagem. Sobre Vila de Cava, onde fica o Parque São Carlos, explicou que a região está inserida no pacote de R$ 3,4 bilhões em obras para a Baixada Fluminense. As intervenções serão feitas pelo Programa de Abastecimento de Água para a Baixada Fluminense e Novo Guandu. Informou ainda que as obras estão em andamento.

Também ressaltou que a Baixada registra, há décadas, crescimento desordenado, com ocupação irregular do solo, não coibidos pelos poderes municipais ao longo dos anos. E prometeu universalizar o esgotamento sanitário na região por meio de parceria com a Secretaria estadual de Desenvolvimento Econômico.


Via Extra
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